Seca, cheia e o risco hidrológico
Como a seca derruba a geração e a cheia ameaça as barragens — os dois lados, sem maquiagem.
O risco hidrológico do setor elétrico tem duas faces opostas no Sul: seca (GSF < 1 prejudica fio-d'água, custo ao MRE) e cheias extremas (enchentes de maio 2024 romperam a UHE 14 de Julho e paralisaram a UHE Jacuí). Conflitos socioambientais históricos (MAB, licenciamento, terras indígenas) adicionam risco regulatório a projetos novos, especialmente a proposta UHE Itapiranga há 40 anos em disputa.
As evidências
Cada item abaixo é uma afirmação com fonte nomeada e marcador de confiança. Compilação de terceiros, citada, e distinta do nosso dado proprietário (ONR/GeoIQ).
- 01
Seca 2021 — crise hídrica nacional: os reservatórios da região Sudeste/Centro-Oeste iniciaram a estação seca com menos de 35% de capacidade (subsistema SE/CO em 32,30%). Estes reservatórios representam 70% do total nacional. A EPE publicou nota técnica 'Escassez Hídrica em 2021: Diagnóstico e Oportunidades' diagnosticando o evento.
FATO - 02
GSF (Generation Scaling Factor) é a medida do risco hidrológico: relação entre o volume de energia gerado pelas usinas e sua garantia física. MRE (Mecanismo de Realocação de Energia) foi criado para transferência de energia entre usinas dado o clima heterogêneo do Brasil. Usinas fio-d'água dependem diretamente da vazão fluvial — mais vulneráveis a secas. Usinas de reservatório permitem controle da geração durante períodos secos.
FATO - 03
Enchente RS maio 2024: choveu 500-700 mm em várias cidades em uma semana (equivalente a um terço da média histórica anual). Mais de 14 trilhões de litros de água chegaram ao Lago Guaíba (quase metade do reservatório de Itaipu). 2,4 milhões de pessoas afetadas; 442 mil tiveram que deixar residências.
FATO - 04
UHE 14 de Julho rompimento: em 2 mai 2024, rompimento parcial da barragem da UHE 14 de Julho (100 MW, CERAN, Rio das Antas, Cotiporã). Primeiro rompimento de usina hidrelétrica nas enchentes. ONS seguiu com monitoramento excepcional do RS pós-rompimento. MAB declarou: 'diante dos eventos extremos, nenhuma barragem é segura'.
FATO - 05
UHE Dona Francisca: durante as chuvas de abr/2024, o PAE foi ativado com afluência de 10.600 m³/s — equivalente a uma cheia decimilenar. Cascata do Jacuí operou de forma coordenada: Passo Real com defluência reduzida, Jacuí em capacidade mínima, Itaúba em vazão natural.
FATO - 06
UHE Jacuí: 180 MW, suspensa pela ANEEL em outubro de 2025 após >12 meses sem gerar. A suspensão veio após a ANEEL rejeitar o argumento da CEEE-G de que a contagem deveria começar apenas em junho de 2025 (quando comunicou o ONS sobre início das obras de modernização). ANEEL inspecionou 137 hidrelétricas pós-enchente; 15 permanecem inoperantes.
FATO - 07
MAB — conflito UHE Garibaldi SC: ~1.300 famílias afetadas (estimativa MAB >1.000). Municípios: Abdon Batista, Cerro Negro, Campo Belo do Sul, Vargem, São José do Cerrito. Demandas: indenizações subavaliadas, reassentamentos em lotes pequenos, 700+ famílias de 4 comunidades ignoradas no cadastro, erro topográfico de 5 metros que inundou comunidades imprevistas.
FATO - 08
UHE Itapiranga SC — conflito de 40 anos: proposta desde ~1970 (Eletrosul), relançada em 2002 (Engevix) e incluída no PAC 2007. Localização: Rio Uruguai entre São João do Oeste (SC), Mondaí (SC) e Pinheirinho do Vale (RS). MAB ativo na região desde 1980. Cruzes de resistência instaladas em 1984 e 2004. Comunidades bloquearam reuniões com prefeituras; pesquisadores impedidos de acessar propriedades por medo de EIA-RIMA.
FATO - 09
UHE Barra Grande SC/RS: inundou mais de 6.000 hectares de Mata Atlântica e Araucárias e expulsou agricultores de suas terras — caso registrado no Mapa de Conflitos Fiocruz como injustiça ambiental. A usina tem reservatório de 90 km².
FATO
Metodologia
Fontes: ANEEL (notas oficiais), EPE (nota técnica escassez 2021), CanalEnergia (rompimento), Cenário Energia (suspensão 2025), MAB (conflitos socioambientais), Mapa de Conflitos Fiocruz, Wikipedia. Triangulação entre fonte regulatória e fonte civil/movimento social.
Riscos & limites honestos
O que quase ninguém publica: onde a tese pode falhar e o que o método não enxerga.
- Impacto do GSF/MRE especificamente para o Sul em 2021 não detalhado em fontes abertas (nota técnica EPE é PDF denso não parseável via WebFetch)
- Número exato de usinas inoperantes pós-enchente 2024 pode ter mudado desde outubro 2025
- UHE Itapiranga: projeto não aprovado formalmente — status exato do EIA/RIMA e tramitação ANEEL não confirmado
O que isso significa para você
- Risco hidrológico bilateral: seca (GSF < 1, MRE não cobre) + cheia (rompimento/paralisação). Terrenos ribeirinhos próximos a barragens exigem verificação de PAE e ZAS do operador
- Machadinho/ENGIE e Itá/ENGIE: famílias com processos de reassentamento históricos podem ter matrículas com restrições ou ônus reais ainda pendentes — ponto de diligência
- UHE Itapiranga: qualquer matrícula em São João do Oeste/Mondaí pode estar na área de influência do projeto — cruzamento ONR × polígono ANEEL de estudos de inventário recomendado